
Cao Hamburger é um cineasta e roteirista brasileiro, premiado tanto pelos trabalhos para a televisão quanto para o cinema. Em destaque está o sucesso da década de 1990, “Castelo Rá-Tim-Bum”, transmitido pela TV Cultura que, posteriormente, o fez ingressar nos longas-metragens com um filme relacionado a série, “Castelo Rá-Tim-Bum: O Filme”, de 1999.
O filme “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” é um marco na carreira do diretor, referente à sua transição de plateia. O longa-metragem recebeu uma série de prêmios e uma indicação ao Urso de Ouro do Festival de Berlim, em 2007.
Com “Xingu”, seu terceiro longa-metragem, o paulistano sai do cenário urbano explorado anteriormente em seus trabalhos, vai para lugares distantes do Brasil e encara o desafio de filmar sem os costumeiros elementos cenográficos. O resultado é um filme que mistura gêneros e toca em questões fundamentais do passado e presente brasileiro, buscando o diálogo com um público disposto a conhecer a aventura dos desbravadores Irmãos Villas Bôas.
De que maneira você acha que Xingu, um filme que toca em aspectos históricos importantes consegue dialogar com o contemporâneo?
Ele não é apenas um filme atual, mas também urgente. Todo o processo de produção foi muito guiado pela ideia de que o filme tem um papel a cumprir, que é o de levantar a questão de como o Brasil trata os povos indígenas, como pretende pensar o seu futuro e de que maneira quer se colocar no século 21. O Brasil tem a responsabilidade e a oportunidade de enxergar os povos indígenas tanto como detentores de direitos à sobrevivência digna dentro de sua própria cultura como pessoas que podem ajudar a civilização ocidental a dar a virada que estamos precisando. Esse seria o pulo do gato. É muita prepotência nossa imaginar que apenas a civilização dos moldes da Ocidental evoluiu, que a evolução tecnológica é a única forma de medir o grau de evolução de uma civilização. Nós temos tido evoluções técnicas quase inimagináveis nos últimos séculos, mas ao mesmo tempo temos sido tão vorazes na busca desse desenvolvimento, que evoluímos, talvez na mesma proporção, em pontos que estão deixando a vida do homem e do planeta mais difíceis. Nesses pontos os povos indígenas poderiam nos ajudar a enxergar o futuro próximo de outra maneira.
Como foi a negociação para trazer os índios para o seu filme?
O relacionamento com os povos indígenas foi um trabalho à parte que começamos
cerca de dois anos antes de rodar. Mantivemos um contato intenso tanto para explicar o que significaria uma equipe de filmagem entre eles como para trazê-los para o filme. O roteiro já foi feito com base nos relatos deles e no ponto de vista que eles têm sobre a própria história. Foram nossos parceiros desde o começo.
Xingu flerta com diversos gêneros cinematográficos. Essa decisão esteve desde o início do projeto?
Quando comecei a mergulhar nesse universo percebi o quanto o preconceito contra o índio no Brasil é descomunal, cruel, injusto e avassalador. Mesmo com o mito de que aqui é terra que acolhe, miscigenada, o índio é visto como povo de terceira ordem. Então me coloquei a seguinte questão: poderia fazer um filme mais contemplativo ou tentar o desafio de fazer filme sobre o universo de um povo desprezado pela sociedade brasileira buscando um grande público.
Xingu ofereceu várias características novas a seus trabalhos, como filmar na mata e assumir uma produção de grandes proporções. Qual é o impacto disso na sua carreira?
Filmar na mata ou no serrado é muito interessante porque não temos os elementos com os quais nos acostumamos na cidade. Coisas como porta, cadeira, mesa, telefone, carro, escada etc. Isso estabelece um desafio para a mise-en-scène e colocação de câmera. Gostei muito de poder filmar em ambiente aberto. Rodar nesse ambiente, em locações distantes e de difícil acesso representa desafio. Logo de cara percebemos que não adiantaria querer dominar ou controlar os elementos da natureza, pois iríamos quebrar a cara. O certo seria entrar na correnteza, adaptar-se aproveitar as dificuldades para construir o trabalho. Foi um exercício diário de interação e diálogo com os fenômenos naturais.