Nossa síndrome de globe trotter
Enquanto amigos trocam de cidade, país, continente, fico aqui pensando nessa atávica necessidade de ir embora, inúmeras vezes retratada no cinema
Todo mundo tem um amigo que já foi. Foi pra não voltar, foi pra retornar… pouco importa. O importante é ir e viver todas as possibilidades do ir. Mas afinal, que impulso é esse que nos leva a querer ir, deixando família, namorado, trabalho, mudando, fugindo, viajando?
Lá em algum filamento do DNA, lá no cerne da alma, lá nas memórias e desejos freudianos, enfim, lá no fundo, deve haver algum resquício que explica e provoca essa vontade, ânsia, necessidade de conhecer, viver e vivenciar outro(s) lugar(es) que não seja(m) o nosso. Será o caráter nômade dos ancestrais mais remotos? O ímpeto explorador dos antepassados viajantes do séc. XIX?
“Il faut être toujours botté et prêt à partir.”
(Michel de Montaigne)
Talvez não seja o caso de tentar responder as perguntas. Mas exemplos não faltam, especialmente no cinema.
“Odeio o cinema como se fosse um veneno,
mas me divirto imitando os filmes.”
(Holden Caulfield)
O Tristan de Legends of the Fall (vulgo Lendas da Paixão em português) ia embora toda hora. Rodava rodava rodava, mas voltava sempre. Os mais próximos diziam que ele tinha um urso dentro de si (Tristan teve uns traumas com ursos) e que o retorno equivalia à hibernação do urso. Silencioso o rapaz. Não era do tipo que gostava de compartilhar o que vivia nas longas estadias fora de casa. Viveu bastante, e o narrador informa, já no final do filme, que Tristan “had always lived in the borderland”.
“Viajamos para nos livrarmos de nós mesmos,
mais do que para nos livrarmos dos outros.”
(Willian Hazutt)
Mas o personagem de Pitt fez isso quando ir embora para algum lugar exigia grande esforço e muito tempo. Bem diferente do contexto de Into the Wild (vulgo Na Natureza Selvagem em português), vivido por Christopher (McCandless, que existiu de verdade), que em plena década de 90 resolve morar e se virar sozinho no Alasca, deixando absolutamente tudo pra trás e impedindo que o encontrassem. Christopher pelo menos quis registrar e dividir com os outros, ainda que não em tempo real, suas impressões e angustias num diário que só foi encontrado quando encontraram seu corpo, após um longo inverno. O que não significa, absolutamente, que este seja um final corriqueiro para quem decide ir embora. Muito pelo contrário, em geral, todo mundo volta.
“É Deus, parece que vai ser nós dois
até o final
Eu vou ver o jogo se realizar
de um lugar seguro
De que vale ser aqui
onde a vida é de sonhar?
Liberdade”
(Marcelo Camelo)
Christopher se definiu um “viajante estético” e não poderia ser diferente, visto que a partida para algum lugar acaba aguçando nossa percepção. Difícil é obrigar o olhar a selecionar e focar diante de tanta novidade. Novidade que renova, revigora e nos faz perceber que pouco ou nada sabemos. Talvez isso, junto com uma memória visual deficiente, faça com que não consigamos nos separar de câmeras fotográficas quando partimos para algum lugar.
“Um homem precisa viajar para lugares que não conhece
para quebrar essa arrogância
que nos faz ver o mundo como o imaginamos,
e não simplesmente como é ou pode ser.”
(Amyr Klink)
Mulheres também vão embora. A Elizabeth de Blueberry Nights (em português, Um Beijo Roubado) que o diga. Deixou o Jeremy dono de bar e partiu pra NY sem previsão de retorno. Conheceu lugares e pessoas que construíram a metáfora perfeita do amadurecimento que lhe faltava e lhe impedia de pegar o lindo e charmoso personagem de Jude Law. E aí voltou outra pessoa, pronta pro Law, preparado já há bem mais tempo do que ela.
“Existem duas categorias de viajantes:
os que viajam para fugir
e os que viajam para buscar.”
(Érico Verissimo)
Certa vez conheci uma pessoa que saiu de um pequeno vilarejo para uma grande capital do mundo. Ele não entendia porque nos meus dias livres eu saia com um guia debaixo do braço (mero artifício de localização, não era ele que me guiava) e só voltava à noite. “Por que você não aproveita e vai conhecer a cidade?”, eu perguntava. “Por quê? Pra quê? Estou bem aqui!”. Mas ele também não resistiu. Meses depois resolveu ir para uma comunidade vegetariana no meio do nada, pequena manifestação tardia da síndrome de globe trotter. Afinal, ir embora na tentativa de se isolar não deixa de ser também uma manifestação dessa síndrome, só que às avessas. Antes ir e errar uma vez do que ficar e errar duas vezes.
“Navigare necesse est,
vivere non est necesse.”
(Pompeius)
Cristiana Giustino é Analista de Propostas da Inffinito e cinéfila.
Voltando ao Rio de barca




